sábado, 20 de julho de 2024

O que se pode esperar da união da Fiat com a Peugeot?

Criação da nova empresa, chamada de Stellantis, foi aprovada por acionistas nesta segunda-feira (4) e deverá otimizar as operações em todo o planeta. No Brasil ela será o maior grupo fabricante de veículos. Mas o que esperar de uma fusão?

Fusões de empresas automotivas costumam ter seu lado ruim e o lado bom para os fãs automotivos destas marcas. O lado ruim que posso citar são as extinções de modelos que possam concorrer entre si. No caso da Stellantis, a nova empresa que juntou os grupos FCA e PSA, não faltam exemplos: Peugeot 208 e Fiat Argo vão conviver na América Latina? Citroen Jumpy, Peugeot e-expert e Fiat Talento vão conviver na Europa?

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O lado bom da coisa é que fusões sempre trazem novidades inesperadas. Um exemplo aconteceu quando a Fiat se associou à Chrysler e levou a Alfa Romeo para o mercado americano.

Outro bom exemplo, ainda que não estejamos falando propriamente de uma fusão, aconteceu no Brasil no ano de 1987 quando Ford e Volkswagen se uniram para criar a Autolatina. Desta união nasceram modelos icônicos, como o Versailles, que era um “Santana da Ford”.

A Autolatina foi um casamento que durou oito anos. O Escort recebeu motor de Gol e surgiram modelos exclusivos como Pointer e Logus – produtos da Volkswagen desenhados pela Ford e com partes estruturais da Ford.



O que se sabe até agora da Stellantis e o que pode se esperar dela?

Corsa é um produto da nova empresa (Foto: Vauxhall)

A Stellantis é fruto da união de uma empresa francesa com uma italiana e terá sede na Holanda. O atual executivo-chefe da Peugeot, Carlos Tavares – um português – será o CEO e membro do conselho em um mandato inicial de 5 anos. Após esses 5 anos o controle deverá ficar a cargo de um executivo do lado da Fiat e assim sucessivamente.

A estrutura de administração predominante será a da FCA, conforme comunicado que as empresas encaminharam em maio do ano passado ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômico).

Já se sabe, por exemplo, que no Brasil a empresa vai manter em funcionamento as fábricas de Porto Real, no Rio (hoje fabricando Peugeot e Citroen), de Betim, em Minas (hoje fabricando Fiat) e de Goiana, Pernambuco (hoje fabricando Jeep). Isso foi informado ao Cade quando a empresa comunicou sobre a fusão no Brasil.

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No entanto, o mesmo comunicado fala em ‘sobreposições horizontais’ em suas linhas, o que deixa claro que as marcas não pretendem concorrer entre si.

Alfa Romeo Stelvio (Foto: Alfa Romeo)

O primeiro produto da Fiat sob essa nova Stellantis já deve enfrentar um problema deste tipo. A empresa está para lançar um novo SUV que, em tese (porque a empresa ainda não apresentou o produto) deve concorrer com o Citroen C4 Cactus, que por sua vez concorre com o Peugeot 2008, que por sua vez concorre com as versões mais baratas do Jeep Renegade. Quem fica de fora nessa?

Já no campo das picapes, onde a Fiat nada com vantagem monstruosa no Brasil, podemos esperar que a picape média Peugeot Landtrek possa chegar para complementar a gama. Acima da Fiat Toro o grupo só tem as picapes RAM, que já estão em outra categoria.

No restante da América Latina a Fiat comercializa a Fullback, que nada mais é do que uma parceria com a Mitsubishi que resultou em uma L200 com o logo da Fiat.

Modelos europeus

Aliás, ainda falando de Fiat: vale lembrar que a Fiat como conhecemos é totalmente diferente da Fiat italiana. Mobi, Argo, Strada, Toro são criações brasileiras que também fazem sucesso nos países vizinhos, mas são ilustres desconhecidas na Itália.

A nova empresa seguirá apostando neste modelo ou pretende unificar a Fiat? É certo que a marca Fiat no Brasil não vai acabar, já que desta forma ela disputa a liderança do mercado. Também é certo que nos próximos meses o Fiat 500 elétrico chega ao Brasil, seguindo um plano da empresa antes da fusão.

Strada, vendida como RAM 700 no México (Foto: Fiat)

Ainda dá pra sonhar mais alto e por que não ter a Alfa Romeo de volta ao Brasil ou ainda a inédita vinda da Opel, que foi comprada pela Peugeot em 2017? Para quem não tem muita afinidade com a Opel, ela era o braço da Chevrolet na Europa e foi ela que desenvolveu veículos como Corsa, Zafira e Astra. Esses veículos ainda existem na Europa, com versões mais recentes, mas existem.

O Corsa, por exemplo, é um dos veículos mais vendidos da Europa e a marca Corsa é muito conhecida no Brasil. No Reino Unido ele é vendido sob a marca Vauxhall e porque não um Peugeot Corsa ou um Fiat Corsa chegando por aqui no futuro?

Por que houve a fusão?

Analistas internacionais dizem que a união das empresas foi uma forma para não ficar para trás no momento em que a eletrificação dos carros caminha a passos largos no mercado mundial.

A FCA, por exemplo, iniciou em 2020 a eletrificação de alguns modelos, como o Fiat 500, mas de maneira muito tímida, enquanto concorrentes como a Volkswagen já estão em um plano mais avançado neste mercado. A Volks já produz o ID3 e o ID4 na Alemanha e prepara uma fábrica nos Estados Unidos para também produzir carros elétricos.

A Peugeot afirma que tem planos muito bem definidos para sua linha elétrica e de tecnologias autônomas e que essas inovações estarão integradas em sua linha até 2022.

Um exemplo que a marca pretende ousar é o conceito E-Legend (foto abaixo), inspirado no 504 Coupé, de 1969, desenhado pelo estúdio Pininfarina. Foi esse nível de inovação que atraiu a FCA para o negócio.

E-legend é o conceito da Peugeot que ela define como “seu futuro” (Imagem: Peugeot)

Com a fusão é a primeira vez em 132 anos que a família Agnelli não estará no controle direto da Fiat. A família, no entanto, continua como sócia majoritária da Ferrari, que desde 2016 não pertence à FCA.

Espero nos próximos meses responder a maioria das questões que apresentei acima. Por enquanto há a torcida para que sejam mantidos empregos e concessionários.

Números da nova empresa

14 marcas (Fiat, Jeep, Abarth, Lancia, Maseratti, Chrysler, Dodge, Ram, Alfa Romeo, Peugeot, DS, Citroen, Opel e Vauxhall).

400 mil funcionários em todo o planeta.

R$ 1 trilhão (receita líquida em 2019).

Publicada originalmente em

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