Apesar de estar mergulhada em uma crise financeira e fechar o ano de 2025 com uma inflação na casa dos 800%, a Venezuela vem aumentando a venda de veículos zero quilômetros no país. Neste texto você vai ver que o carro é para poucos no país, mas os poucos têm boas opções: há até uma concessionária da Ferrari.

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Somente o preço dos veículos já vai te dar uma noção do tamanho da crise no país para os mais pobres: o Ford Bronco Sport no Brasil custa algo em torno de R$ 270 mil. Na Venezuela o valor é semelhante. Tendo o valor em Dólar como referência, o Bronco Sport é vendido a R$ 300 mil.
O salário mínimo na Venezuela hoje equivale a algo em torno de R$ 4. Significaria guardar 75 mil meses de salário para comprar o carro sem gastar um centavo e sem considerar a taxa astronômica de juros. Isso aponta um abismo entre os mais ricos, que podem comprar, e os mais pobres, que sequer sonham em comprar.
Marcas tradicionais
A Ford possui 14 concessionárias no país e tem oito modelos disponíveis: Bronco Sport, Bronco, Territory, Everest, Explorer, Expedition, Ranger e Ranger Raptor. A rede de 14 lojas atende principalmente o mercado de peças e manutenção.
Todos os carros disponíveis para vendas atualmente no país são importados. Desde 2017 a indústria automotiva venezuelana foi desmantelada – você pode ler isso aqui. Depois disso muitas marcas foram embora. A Chevrolet é um desses exemplos.
A Toyota, que já teve fábrica no país, se mantém ativa. Vende o Agya, um carro de porte semelhante ao Kwid que custa R$ 100 mil e é importado da Indonésia. Lá também estão disponíveis o Yaris, o Corolla, o Corolla Cross (importados do Brasil), Land Cruiser 70, Land Cruiser Prado, Land Cruiser 300, Hilux, a van Hiace e a SW4. A rede é de 46 concessionários e a marca está anunciando o Yaris Cross para este ano.
Ferrari
A loja da Ferrari em Caracas é a primeira da América. A marca chegou ao país em 1954 por um empresário venezuelano. A concessionária fica no bairro Las Mercedes, epicentro financeiro de Caracas.
“Las Mercedes se tornou uma região privilegiada que não se parece em nada com o resto da Venezuela. Algumas pessoas vão até lá e sentem uma distorção da realidade”, disse Darwin González, político de oposição à ditadura venezuelana em entrevista à rede BBC em 2023.
Em 2021 alguns veículos de imprensa se confundiram ao noticiar que a marca havia chegado naquele momento ao país. Na realidade a loja havia passado por uma reforma e estava sendo reinaugurada.
O vídeo abaixo foi gravado pelo influenciador venezuelano Gabriel Herrera. Para ele, o gerente da loja disse que os clientes da loja não são pessoas que querem aparecer. “São colecionadores, apaixonados por design, apaixonados por velocidade”, disse Carlos Flores.
Novo fôlego
Sufocada por um embargo econômico norte-americano, o país viu as vendas de automóveis minguarem entre 2017 e 2021. Investimentos daChina, Rússia e Irã fizeram o país recuperar parte de sua capacidade no mercado automotivo de veículos novos.
Em 2023 a Favenpa havia divulgado que 5 mil veículos novos foram comercializados no país durante todo o ano. Isso equivale ao que a Volkswagen vende no Brasil em apenas 3 dias. Já em 2025 a Favenpa lista mais de 25 mil veículos novos vendidos, incluindo carros, caminhões e ônibus.
Volkswagen e Fiat, populares no Brasil, dão o termômetro desta fase pós 2023. A Volks havia praticamente encerrado sua atividade por lá em 2023, quando aposentou o Gol. Agora ela vende o T-Cross e as concessionárias estão anunciando Saveiro, Polo, Virtus e Tera para os próximos meses. A Fiat oferece Pulse, Fastback, Cronos e Toro.
Os chineses também estão presentes no país. A Changan, que no Brasil é parceira da Caoa, abriu uma unidade e vende veículos elétricos, como o Benni, picapes e SUVs. Também com preços super restritivos aos cidadãos comuns.
Mercado Clandestino
Em uma entrevista de 2022, o presidente da Federação automotiva da Venezuela (Favenpa), disse que o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos estava bloqueando a chegada de peças de reposição ao país, o que incentivou a criação de um mercado clandestino.
Assim, atualmente é possível encontrar peças de reposição nas lojas do país sem um registro de entrada ou controle de impostos. Quem não entra neste mercado fica sem peças.
Carro popular iraniano

A média de idade da frota venezuelana é superior a 20 anos. No Brasil essa média gira em torno de 11 anos. Esse fato vinha preocupando a ditadura venezuelana, já que a população em massa não tem qualquer condição de comprar um veículo novo.
A solução apresentada foi notícia aqui no Turboway em 2023: o governo importou dois mil veículos da montadora iraniana Saipa. O Irã é um país parceiro da ditadura venezuelana.
Os veículos foram importados para chegar à população com preço subsidiado e a promessa era que os modelos seriam nacionalizados com o tempo. Os veículos foram vendidos, mas a produção nacional nunca ocorreu. Como são poucos e são mais novos, os Saipa viraram ouro no mercado de usados.



